APRENDER

As notícias mostram a realidade tal como ela é?

Gravação e transmissão de um acontecimento urbano, contrastando a cena global com os planos fechados das câmaras. [Imagem gerada por IA]. Google Gemini 2026.

Um jovem jornalista publicou 41 artigos numa revista norte-americana de referência, The New Republic. O seu trabalho valeu-lhe reconhecimento profissional, mas a sua carreira sofreu uma queda abrupta quando se descobriu que 27 dos 41 artigos continham elementos inventados ou parcialmente fabricados.

A história é contada no filme Verdade ou Mentira (Shattered Glass, 2003), realizado por Billy Ray. O filme retrata o caso de Stephen Glass e mostra como a fraude passou despercebida durante algum tempo, apesar dos procedimentos de verificação da revista. A fraude começou a ser desmascarada quando Adam Penenberg, jornalista de uma publicação concorrente, tentou confirmar os factos e as fontes de um dos artigos e não conseguiu encontrar provas da história relatada.

O caso prejudicou a credibilidade da revista e demonstrou que a confiança do público depende da rigorosa verificação dos factos, da transparência das fontes e da responsabilidade dos jornalistas e dos editores.

Confirmar a informação através de fontes independentes é fundamental para o jornalismo.

Cartaz do filme Shattered Glass de 2003.

Mas os erros também acontecem

Em fevereiro de 2015, a agência noticiosa francesa Agence France-Presse (AFP) anunciou, por engano, a morte do empresário Martin Bouygues. A notícia foi difundida por outros meios de comunicação antes de ser desmentida. A agência reconheceu o erro e apresentou desculpas.

Este caso mostra que até organizações jornalísticas reconhecidas podem cometer erros. A rapidez na divulgação de uma notícia não substitui a necessidade de confirmar a identidade das pessoas, a fiabilidade das fontes e a consistência da informação.

Quando uma notícia se transforma numa narrativa enganadora

A 10 de junho de 2005, a Agência Lusa noticiou que cerca de 500 jovens teriam roubado e agredido banhistas na Praia de Carcavelos. A notícia, rapidamente reproduzida por televisões, jornais e rádios, ficou conhecida como o «arrastão».

O episódio desencadeou um intenso debate público sobre segurança, imigração, racismo e bairros considerados problemáticos. No entanto, a dimensão e a natureza dos acontecimentos foram amplificadas pela cobertura mediática, que apresentou como confirmada uma narrativa que não tinha sido devidamente verificada.

O documentário da jornalista Diana Andringa, Era uma vez um arrastão (2005), analisou criticamente a cobertura jornalística e questionou a versão que dominara as notícias.

Este caso demonstra que a repetição de uma informação por vários meios de comunicação não garante que ela seja verdadeira. Se diferentes órgãos de comunicação reproduzirem a mesma notícia sem verificarem as fontes originais, um erro pode adquirir uma aparência de credibilidade

Capa do jornal Correio da Manhã de 11 de junho de 2005.

As palavras também influenciam a forma como vemos os acontecimentos

Em 2010, foi aprovado um projeto para construir um centro islâmico e comunitário em Nova Iorque, a cerca de dois quarteirões do antigo complexo do World Trade Center. O projeto incluía um espaço de oração, mas também outras instalações comunitárias.

A expressão «Mesquita no Ground Zero», utilizada por alguns meios de comunicação, tornou-se uma designação controversa. O centro não ficava no local exato dos antigos edifícios do World Trade Center, e a designação escolhida contribuía para associar o projeto diretamente ao local dos atentados de 11 de setembro de 2001.

Este exemplo permite perceber como a escolha das palavras pode influenciar a interpretação de um acontecimento. Uma designação aparentemente descritiva pode acentuar determinados aspetos, despertar emoções e condicionar a opinião pública.

Uma notícia pode conter factos verdadeiros e, ainda assim, transmitir uma imagem incompleta ou tendenciosa de um acontecimento.

Localização do espaço do World Trade Center e do espaço do centro islâmico em Nova Iorque. (Fonte: Daily Mail)

Quem aparece nas notícias — e quem fica de fora?

Os media não representam necessariamente a diversidade da sociedade. A escolha dos protagonistas, das fontes e dos temas pode dar maior visibilidade a determinados grupos e deixar outros em segundo plano.

O Global Media Monitoring Project (GMMP), um estudo internacional que acompanha a representação de género nas notícias, continua a identificar desigualdades. Na edição de 2025, as mulheres representavam 27% das pessoas vistas, ouvidas ou referidas nas notícias dos meios tradicionais analisados na Europa. Nas notícias online, a proporção era de 31%.

A representação de pessoas com deficiência, de minorias e de populações de diferentes regiões do mundo também merece análise: importa saber não só quantas vezes aparecem, mas em que contextos, com que papéis e através de que vozes.

A cobertura internacional pode, por exemplo, atribuir mais atenção a alguns países do que a outros, privilegiando determinadas regiões e perspetivas. Para compreender estas desigualdades, é necessário consultar estudos com dados, datas e metodologias identificáveis, em vez de generalizar a partir de exemplos isolados.

Todas as mensagens media são construções da realidade e não uma janela para a realidade.

As notícias são construções da realidade

Os exemplos anteriores mostram que as notícias não são uma janela transparente para a realidade. São representações construídas a partir de acontecimentos reais, através de escolhas feitas por jornalistas e editores.

Os profissionais dos media selecionam os acontecimentos que consideram relevantes, escolhem as fontes a consultar, decidem o que incluir ou excluir e organizam a informação através de palavras, imagens, sons e outros recursos.

Estas escolhas são influenciadas por vários fatores: os critérios jornalísticos, o tempo e os recursos disponíveis, a linha editorial, as fontes acessíveis, os interesses das organizações de comunicação social e as expectativas do público. No ambiente digital, os sistemas de recomendação e os algoritmos das plataformas também condicionam a visibilidade dos conteúdos.

Isto não significa que todas as notícias sejam falsas ou que todos os jornalistas manipulem a informação. Significa que é importante distinguir entre os acontecimentos, os factos confirmados e a forma como são apresentados.

Por isso, as notícias e outras mensagens dos media devem ser analisadas com ceticismo saudável: não se trata de desconfiar de tudo, mas de questionar, verificar e procurar evidências antes de aceitar ou partilhar uma informação.

Cinco perguntas para analisar uma mensagem mediática

O Center for Media Literacy, nos Estados Unidos, propõe cinco perguntas fundamentais para analisar mensagens mediáticas. Podem ser aplicadas a notícias, vídeos, publicações nas redes sociais, anúncios e outros conteúdos digitais.

  1. Quem criou esta mensagem? Identifica o autor, a organização responsável e, quando possível, quem financiou ou publicou o conteúdo.

  2. Que técnicas são utilizadas para captar a minha atenção? Observa as palavras, as imagens, os sons, os títulos, a edição e os recursos emocionais.

  3. Como poderão pessoas diferentes interpretar esta mensagem? Considera que as experiências, os conhecimentos e os valores de cada pessoa influenciam a interpretação.

  4. Que valores, estilos de vida e pontos de vista estão representados — ou ausentes? Identifica os protagonistas, as fontes consultadas, os grupos visíveis e as perspetivas que ficaram de fora.

  5. Porque foi criada e divulgada esta mensagem? Procura perceber se pretende informar, persuadir, entreter, vender, mobilizar ou alcançar outros objetivos.

Estas perguntas não permitem, por si só, determinar se uma notícia é verdadeira. Para isso, é também necessário verificar os factos, consultar as fontes originais sempre que possível e comparar a informação com fontes independentes e credíveis.

Os media não são uma janela para a realidade…

Ao aplicares estas perguntas às notícias e aos conteúdos digitais que consomes, poderás compreender melhor os critérios que levam os jornalistas a privilegiar determinados acontecimentos e a apresentar a informação de uma certa maneira.

Deves ainda ter em conta que a circulação das notícias depende hoje não apenas dos jornalistas e das organizações de comunicação social, mas também das plataformas digitais, dos sistemas de recomendação, dos interesses comerciais e das escolhas do público.

Estas questões podem ser aplicadas a conteúdos de quaisquer media, tradicionais ou digitais. O objetivo não é rejeitar automaticamente a informação, mas aprender a distinguir factos de interpretações, reconhecer possíveis omissões e enquadramentos tendenciosos e fundamentar as tuas conclusões em evidências.

Antes de acreditares numa notícia ou de a partilhares, pergunta: quem a produziu, em que fontes se baseia, que provas apresenta e o que preciso de confirmar?


MILD - Quem somos?

Imagem do cabeçalho Thought Catalog on Unsplash
_
Contactos
_
Acessibilidade
_
Privacidade
_
Lista de distribuição
_
Blogue
_
Facebook
_
Instagram
_
YouTube