
As bibliotecas escolares são estruturas pedagógicas e culturais ao serviço das comunidades educativas, com uma intervenção que abrange a leitura, as literacias, o apoio ao currículo, a inclusão, a cultura, a participação e o acesso qualificado à informação e ao conhecimento.
Num contexto marcado pela abundância de informação, pela crescente mediação tecnológica, pela inteligência artificial e pela rápida transformação das formas de ler, aprender, comunicar e produzir conhecimento, a ação das bibliotecas escolares deve concentrar-se em duas áreas fundamentais: a leitura e a literacia informacional e mediática.
Estas áreas não podem depender apenas da iniciativa das bibliotecas ou dos professores bibliotecários, nem concretizar-se através de atividades isoladas. Exigem uma resposta institucional, articulada com o projeto educativo e o currículo e assumida pelas diferentes estruturas pedagógicas e por toda a comunidade educativa.
Importa, por isso, consolidar uma atuação planeada, continuada e progressiva, que articule as bibliotecas com as diferentes estruturas educativas, assegure a continuidade entre níveis e ciclos de ensino e integre a leitura e as literacias nos processos de ensino e de aprendizagem.
As prioridades para 2026-2027 organizam-se, assim, em torno de um compromisso comum: construir, em cada agrupamento ou escola não agrupada, um programa integrado de leitura e de literacia informacional e mediática.
Iniciado na educação pré-escolar e desenvolvido progressivamente ao longo de toda a escolaridade, este programa deve concretizar-se no currículo, articular escolas, níveis e ciclos de ensino e ser assumido por toda a comunidade educativa.
Construir um programa integrado de leitura e de literacias em cada agrupamento ou escola não agrupada
As bibliotecas escolares são chamadas a colaborar ativamente com os órgãos e as estruturas pedagógicas do agrupamento ou escola não agrupada na conceção, coordenação e dinamização desse programa, promovendo a articulação entre escolas (quando aplicável), níveis e ciclos de ensino, apoiando o trabalho pedagógico e mobilizando recursos e parceiros.
Uma ação centrada nas pessoas
A ação das bibliotecas escolares deve ter como centro cada criança e cada jovem, reconhecendo os seus direitos, necessidades, experiências e possibilidades de desenvolvimento.
As bibliotecas escolares devem garantir que todos se sintam acolhidos, reconhecidos e capazes de participar, independentemente das suas circunstâncias ou da resposta existente na escola que frequentam.
Os alunos devem ser envolvidos não apenas como destinatários, mas como participantes ativos, com oportunidades para exprimirem as suas perspetivas e contribuírem para as decisões, os projetos e a vida da biblioteca.
Num contexto de crescente mediação tecnológica, importa ainda assegurar que a tecnologia, designadamente a inteligência artificial, permanece ao serviço das pessoas e do bem comum, preservando a autonomia, o pensamento crítico, a criatividade, a responsabilidade, as relações humanas e a dignidade de cada pessoa.
1. Leitura, escrita e oralidade
A leitura constitui uma competência matricial, indispensável à aprendizagem, à construção do conhecimento, à fruição cultural e à participação na vida coletiva. Neste processo, o domínio do texto verbal, nas suas formas escrita e oral, ocupa um lugar central, enquanto base da compreensão, da elaboração do pensamento e da comunicação.
Num contexto marcado pela aceleração, pela fragmentação da atenção e pela multiplicação de estímulos, suportes e linguagens, importa garantir tempos, espaços e experiências que favoreçam a leitura regular, continuada e profunda.
As bibliotecas escolares devem contribuir para a formação de leitores autónomos, críticos e envolvidos, promovendo o contacto com textos e obras diversificados, adequados aos diferentes níveis de desenvolvimento, interesses, experiências e necessidades dos alunos.
A leitura deve ser trabalhada em articulação com a escrita e a oralidade, enquanto competências interdependentes de compreensão, expressão, criação e comunicação. Sem desvalorizar a leitura de textos multimodais, importa assegurar uma atenção continuada ao texto verbal e às competências linguísticas e cognitivas necessárias à sua compreensão profunda.
Esta intervenção deve iniciar-se na educação pré-escolar, consolidar-se no 1.º ciclo e desenvolver-se progressivamente ao longo de todo o percurso escolar, atravessando as diferentes áreas disciplinares.
2. Literacia informacional e mediática
A crescente complexidade do ecossistema informacional e mediático exige que os alunos saibam procurar, selecionar, avaliar, interpretar, produzir e comunicar informação de forma crítica, ética e responsável.
A abundância de conteúdos, a desinformação, a ação dos algoritmos, a produção automatizada, a inteligência artificial e a transformação das práticas comunicacionais tornam indispensável uma intervenção educativa sistemática e continuada.
As bibliotecas escolares devem contribuir para que os alunos compreendam o modo como a informação e os media são produzidos, organizados, distribuídos e utilizados, reconheçam interesses, perspetivas e mecanismos de influência e tomem decisões fundamentadas.
Esta área deve ser desenvolvida em contextos curriculares significativos, através de processos de pesquisa, resolução de problemas, criação e comunicação, nos quais os alunos assumam um papel ativo. A intervenção deve ser sistemática e não se limitar a ações avulsas ou ao domínio instrumental das tecnologias.
Equidade e corresponsabilização
Nas escolas não agrupadas, a biblioteca deve articular-se com a direção e as estruturas pedagógicas, garantindo que a sua ação abrange todos os alunos e é assumido como responsabilidade comum.
Nos agrupamentos, para além da necessária articulação das bibliotecas com a direção e as estruturas pedagógicas, é fundamental que as diferentes respostas existentes (Biblioteca escolar, Ponto Biblioteca, Estação de Livros ou outra solução de acesso a recursos e serviços) funcionem de forma integrada.
Cabe ao agrupamento assegurar a complementaridade entre essas respostas, a circulação de recursos, a prestação de serviços às escolas sem biblioteca e a participação de todas as escolas, garantindo que a inexistência de uma biblioteca escolar num estabelecimento não significa ausência de intervenção. Todas as crianças e jovens devem beneficiar, de forma regular e equitativa, da ação das bibliotecas escolares, através de modalidades adequadas às condições, aos públicos e às necessidades de cada escola.
Um programa institucional comum permite assegurar coerência, continuidade e equidade, evitando que o acesso dos alunos a oportunidades de leitura e de desenvolvimento das literacias dependa da escola que frequentam, do ciclo de ensino, da infraestrutura disponível ou das iniciativas individuais de cada profissional.
Cada resposta deve, por isso, integrar-se numa rede comum e não funcionar como uma unidade isolada.
Integração curricular
A participação das bibliotecas escolares no desenvolvimento do currículo deve traduzir-se numa intervenção planeada, regular e progressiva, articulada com as aprendizagens essenciais, os projetos curriculares e as prioridades educativas do agrupamento.
Importa, assim, colaborar na conceção, concretização e avaliação de programas e sequências de aprendizagem que integrem a leitura e as literacias em situações curriculares.
Deste modo, a biblioteca deve continuar a afirmar-se como parceira pedagógica, contribuindo com curadoria, recursos, conhecimento especializado, metodologias e ambientes de aprendizagem diversificados.
Infraestrutura e qualidade dos serviços
A concretização de um programa integrado de leitura e literacias exige bibliotecas capazes de responder às necessidades educativas, culturais e sociais das comunidades.
Para além do espaço físico, a infraestrutura da biblioteca integra coleções, tecnologias, equipamentos, ambientes digitais e serviços presenciais e em linha, que devem ser acessíveis, flexíveis, inclusivos, atualizados e adequados às diferentes formas de ler, aprender, pesquisar, criar, comunicar e colaborar, acompanhando as mudanças pedagógicas e tecnológicas.