
As redes sociais transformaram a forma como comunicamos, descobrimos informação, partilhamos experiências e nos relacionamos com os outros. O Facebook, criado em 2004, foi um dos serviços que contribuíram para esta transformação. Antes dele, já existiam plataformas como o MySpace e o hi5; o Orkut surgiu também em 2004. Mais tarde, apareceram serviços com características diferentes, como o Instagram, o TikTok e o Snapchat.
Hoje, as redes sociais não são apenas espaços onde vemos publicações de amigos ou seguimos pessoas de quem gostamos. São também plataformas que recomendam vídeos, notícias, imagens, anúncios e conteúdos de contas que nem sequer conhecemos.
Mas coloca-se uma pergunta importante: entre tudo aquilo que poderias ver, quem decide o que aparece primeiro no teu ecrã?
Quando abres uma rede social, não encontras necessariamente as publicações pela ordem em que foram criadas. A plataforma utiliza sistemas de classificação e recomendação que procuram prever quais os conteúdos que poderão ser mais relevantes ou suscitar maior interesse da tua parte.
Estes sistemas analisam diferentes sinais, como as contas que segues, as publicações de que gostas, os comentários que fazes, os conteúdos que partilhas e os vídeos que vês. Podem também considerar o tempo que dedicas a determinados conteúdos, as tuas interações recentes e as preferências que indicas diretamente.
Com base nesses sinais, os algoritmos ordenam os conteúdos e selecionam aqueles que te são apresentados. O objetivo não é simplesmente mostrar tudo o que os teus amigos publicam, mas construir uma experiência personalizada.
Isto significa que duas pessoas podem abrir a mesma rede social e encontrar conteúdos bastante diferentes, mesmo que sigam algumas das mesmas contas.

A utilização das redes sociais gera um ciclo contínuo de informação e recomendações.
Tu interages: gostas de uma publicação, comentas, partilhas um vídeo ou permaneces a vê-lo.
A plataforma regista sinais: essas ações podem ajudar a identificar os teus interesses e padrões de utilização.
O sistema faz previsões: estima que outros conteúdos poderão captar a tua atenção.
Recebes novas recomendações: alguns desses conteúdos aparecem no teu feed ou na secção de vídeos sugeridos.
O ciclo recomeça: as tuas novas interações podem influenciar recomendações futuras.
Este processo não significa que a plataforma conheça perfeitamente os teus gostos ou que todas as suas previsões estejam corretas. Os algoritmos trabalham com estimativas, que podem mudar com o tempo e com o contexto.
Além disso, aquilo que te é mostrado não depende apenas das tuas preferências. Também pode depender das regras da plataforma, da atualidade dos conteúdos, da popularidade de determinadas publicações, dos objetivos comerciais do serviço e de outros critérios definidos pelos seus responsáveis.
As tuas escolhas podem ter valor económico. Muitas redes sociais disponibilizam os seus serviços gratuitamente, mas obtêm uma parte importante das suas receitas através da publicidade.
Para apresentar anúncios a públicos potencialmente interessados, as plataformas podem utilizar dados sobre a atividade dos utilizadores, as suas interações e outros sinais permitidos pelas regras aplicáveis. Estes dados ajudam a selecionar anúncios e a avaliar os resultados das campanhas publicitárias.
A personalização pode ser útil: permite descobrir conteúdos relacionados com os nossos interesses, encontrar pessoas com gostos semelhantes ou conhecer produtos e serviços relevantes.
Contudo, também levanta questões importantes. Se uma plataforma procura apresentar conteúdos com maior probabilidade de captar a nossa atenção, poderá dar mais visibilidade a determinados temas, opiniões ou formatos do que a outros.
O conteúdo que mais te prende a atenção não é necessariamente aquele que mais te informa, ensina ou ajuda a compreender o mundo.
Por isso, importa perguntar: que interesses estão presentes nas recomendações que recebes? Os teus, os dos anunciantes ou os da própria plataforma? E como se relacionam esses interesses?
A personalização torna mais fácil encontrar conteúdos que nos interessam, mas pode também reduzir a diversidade daquilo que vemos.
Se interagires repetidamente com publicações sobre um determinado tema, é possível que a plataforma passe a recomendar-te mais conteúdos semelhantes. Isso pode ser útil para aprofundares um interesse, mas também pode limitar o contacto com perspetivas diferentes.
Este fenómeno está relacionado com o debate sobre as chamadas bolhas de filtragem e as câmaras de eco. São conceitos que ajudam a compreender como a seleção algorítmica e os hábitos de utilização podem favorecer ambientes informativos pouco diversificados. Contudo, não significa que todas as pessoas estejam isoladas numa bolha ou que os algoritmos mostrem exclusivamente conteúdos com que concordam.
A tua experiência também depende das contas que segues, das pesquisas que fazes, das escolhas que tomas e das ferramentas de controlo disponibilizadas pela plataforma.
As redes sociais permitem publicar conteúdos com grande facilidade e dar-lhes a aparência que quisermos. Uma fotografia, um vídeo ou uma mensagem podem transmitir uma impressão convincente mesmo quando a informação está incompleta, é enganadora ou é falsa.
A seleção algorítmica não garante que aquilo que aparece no teu ecrã seja verdadeiro. Um conteúdo pode receber muitas interações e continuar a conter informações incorretas. Do mesmo modo, uma publicação pouco popular pode apresentar informação rigorosa e relevante.
É importante distinguir duas questões:
Uma recomendação não é uma validação da verdade. Antes de partilhares uma publicação, verifica quem a produziu, quando foi publicada, que provas apresenta e se outras fontes credíveis confirmam a informação.
As redes sociais não servem apenas para nos apresentar conteúdos. Também são espaços onde construímos e apresentamos uma imagem de nós próprios.
Escolhemos fotografias, escrevemos comentários, partilhamos opiniões e decidimos que aspetos da nossa vida queremos tornar visíveis. Esta apresentação pode refletir os nossos interesses e experiências, mas não corresponde necessariamente à totalidade daquilo que somos.
O mesmo acontece nos ambientes virtuais, onde podemos representar-nos através de avatares e personalizar a nossa aparência ou os espaços que habitamos.
Um exemplo é o Second Life, um mundo virtual tridimensional lançado em 2003. Os utilizadores podem criar avatares, explorar ambientes, participar em atividades sociais e construir espaços virtuais. A plataforma possui uma economia própria, com a moeda virtual Linden Dollar, utilizada em determinadas transações e sujeita às condições do serviço.
Estes ambientes permitem experimentar formas diferentes de identidade, criatividade e interação. Ao mesmo tempo, recordam-nos que a imagem que apresentamos num espaço digital resulta de escolhas: o que mostramos, o que escondemos e a forma como queremos ser percecionados.
Os algoritmos têm um papel importante na seleção dos conteúdos, mas isso não significa que não possas tomar decisões sobre a tua experiência digital.
Podes rever as contas que segues, assinalar conteúdos que não te interessam, consultar fontes diferentes e utilizar as ferramentas de personalização disponíveis. Em algumas plataformas, podes também alterar preferências de recomendação ou indicar diretamente os temas que gostarias de ver com maior ou menor frequência.
Estas opções não eliminam toda a influência dos algoritmos, mas ajudam-te a compreender melhor e a gerir a tua experiência.
Da próxima vez que abrires uma rede social, pensa nestas perguntas:
Compreender as redes sociais é perceber que o teu feed não é uma janela neutra para o mundo: é uma seleção construída por sistemas tecnológicos, empresas e escolhas humanas. Aprender a utilizá-las criticamente significa não aceitar essa seleção como a única realidade disponível.
| MILD - Quem somos? Imagem do cabeçalho Thought Catalog on Unsplash |