
Ler um romance num Kindle ou noutro e-reader é cómodo e permite transportar centenas de livros num único dispositivo. No entanto, na maioria dos casos, continuamos a ler uma obra literária concebida para ser lida em papel, agora apresentada num formato digital. Chamamos a isso literatura digitalizada.
É importante distinguir a literatura digitalizada da literatura digital, criada especificamente para explorar as possibilidades das tecnologias digitais e que, muitas vezes, depende delas para existir enquanto obra artística.
Por exemplo, ler um romance de José Saramago num e-book é uma forma de aceder a uma obra literária tradicional através de um suporte digital. Da mesma forma, ouvir um poema de Fernando Pessoa recitado no YouTube é contactar com uma obra literária através de uma gravação audiovisual. Em ambos os casos, o meio digital permite aceder à obra, mas não altera necessariamente a sua estrutura literária.
Na literatura digital, pelo contrário, a tecnologia pode fazer parte da própria criação literária. As palavras podem combinar-se com imagens, animações, vídeos, música, sons e hiperligações. O leitor pode ter de clicar em elementos, fazer escolhas, explorar diferentes percursos ou descobrir várias sequências de leitura. Nalgumas obras, o texto modifica-se em função das ações do leitor ou é gerado, total ou parcialmente, por programas informáticos.
Estas experiências desafiam as convenções dos géneros literários tradicionais — como o romance, o conto ou o poema — e exploram novas formas de contar histórias, construir sentidos e envolver o leitor. Em vez de seguir sempre uma sequência linear, este pode participar na construção do percurso narrativo, embora o grau de interação varie de obra para obra.
Por isso, algumas obras de literatura digital perderiam uma parte essencial da sua natureza se fossem transpostas para papel. Uma narrativa que depende de animações, sons, escolhas interativas ou palavras em movimento não pode ser reproduzida integralmente numa página impressa. Além disso, certas obras dependem de programas ou dispositivos específicos, o que pode dificultar o seu acesso quando a tecnologia evolui ou deixa de estar disponível.
A literatura digital é um campo de criação em constante evolução, que aproxima a literatura das artes visuais, da música e da programação informática. Embora seja menos conhecida do que a literatura publicada em formatos tradicionais, oferece novas possibilidades de experimentação artística e de participação do leitor.
Em síntese: a literatura digitalizada utiliza as tecnologias digitais para apresentar obras que poderiam, em geral, existir em papel; a literatura digital explora essas tecnologias como parte integrante da obra, criando experiências literárias que podem ser interativas, multimédia e não lineares.
Queres descobrir exemplos? Explora o diretório de literatura eletrónica da Electronic Literature Organization e procura obras que utilizem o som, a imagem, o movimento ou a interação de formas inesperadas.
Página do diretório de literatura eletrónica da Electronic Literature Organization.
Estás preparado para descobrir uma literatura que não se limita a ser lida, mas que também pode ser explorada, ouvida e experienciada?
| MILD - Quem somos? Imagem do cabeçalho Thought Catalog on Unsplash |