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“As pessoas estão mais interessadas no trabalho manual, para fugir ao digital”

António Araújo, aluno do 7.º ano do Agrupamento de Escola Santos Simões - Guimarães, venceu o Concurso Jornalistas em Rede, na rubrica de Entrevista. A tradição das Cantarinhas dos Namorados motivou este jovem a aprofundar as raízes de uma técnica de olaria, que se renova e continua a encantar, tornando-se viva nos códigos de socialização.

“Jornalistas em Rede” é um concurso promovido pelo PÚBLICO na Escola  e a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) e destinado aos alunos do 3.º ciclo do ensino básico. Em cada ano letivo, atribui dois prémios: à melhor entrevista e à melhor reportagem. Os trabalhos a concurso foram apreciados por um júri do qual fizeram parte: Bárbara Simões, jornalista e coordenadora do PÚBLICO na Escola; Carla Fernandes e Dália Santos, elementos da equipa RBE; e Carolina Zoe Oliveira, aluna do 10.º ano na Escola Secundária de Camões, em Lisboa.

“As pessoas estão mais interessadas no trabalho manual, para fugir ao digital”

Com os quatro elementos se faz uma cantarinha: a terra, o ar, a água e o fogo que coze a peça. Maria Fernanda Braga, oleira, diz que esta é “uma arte mágica”.

Entrevista Por António Araújo
7.º ano, Agrupamento de Escolas Santos Simões

A oleira Maria Fernanda com António Araújo num ateliê de fim de semana na loja FNAC. Foto Ana Costa.  . 

Maria Fernanda Lima do Rosário Inácio Braga é oleira na Casa do Povo de Fermentões, concelho de Guimarães. Tem 60 anos e iniciou a sua carreira como artesã há 26 anos. Sendo das poucas oleiras que ainda sabem a técnica de moldagem da famosa “Cantarinha dos Namorados", peça icónica do artesanato vimaranense, visitámo-la no seu ateliê em dezembro de 2025, num “dia aberto” dedicado a exibir a sua arte.

O que a levou a ser oleira? 

Eu era desenhadora e vivia no Algarve. Vim para Guimarães exatamente por causa das Cantarinhas. Um dia ouvi na rádio que ia abrir um curso de olaria e achei interesse, nunca pensei que acabaria por se tornar a minha profissão.

Quando e como aprendeu a técnica das Cantarinhas?

Foi com o último mestre das Cantarinhas, o último oleiro de Guimarães, Joaquim Oliveira. O meu encontro com o barro foi no curso que anunciaram na rádio e que se realizou para dar continuidade a esta arte.  

O que sente ao trabalhar o barro?

É uma arte mágica, porque se trabalha com os quatro elementos: a terra, o ar, a água e o fogo que coze a peça. A primeira coisa que senti, quando o meu mestre me pôs uma bolinha de barro na mão, foram as inúmeras possibilidades de dar vida àquela peça, o que é algo que me acompanha ainda hoje.

Ainda há muitas pessoas interessadas em dar continuidade a este legado?

Sim, e digo isso com satisfação e muita alegria. Acabei agora de dar um curso para formar oleiros a nível profissional. Logo que houve a divulgação do curso, tivemos mais de 80 inscrições. Penso que as pessoas, hoje, estão mais interessadas no trabalho manual, criativo, para fugir ao digital… e isso deixa-me feliz! 

O que tem a Cantarinha dos Namorados tão especial?

É uma peça que conta uma história que está muito associada ao casamento. Há uma lenda que diz que, quando um rapaz queria casar com uma rapariga, oferecia-lhe uma Cantarinha para oficializar o noivado. Antigamente, nas casas, não havia água canalizada e ia-se buscar água à fonte. Se aparecia uma rapariga com um cântaro mais rendilhado, já significava que era noiva. Mas há detalhes que têm outro significado. Repara que a tampa tem uma pomba, o que simboliza a paz e a harmonia do casal. O facto de ser decorada com mica também torna a peça especial. A mica é um mineral brilhante que não se usa em mais nenhuma olaria em Portugal. Esta mica é recolhida por mim no Gerês e transformo-a em pó para pôr na Cantarinha em determinados detalhes, por exemplo nas pontas das asas da pomba.

Onde arranja a matéria-prima para fazer as cantarinhas?

Como já disse, a mica vem do Gerês. Antigamente, as pessoas recolhiam-na na Penha, aqui ao lado da cidade, mas agora já não há. Em relação ao barro, compro-o em Barcelos, porque, felizmente, é uma terra de muitos oleiros, onde a arte é valorizada.

O que torna a Cantarinha um símbolo de Guimarães?

No século XIX, em 1884, esta peça foi apresentada na Exposição Industrial de Guimarães. Foi uma mostra muito importante para a região, onde se apresentavam os melhores produtos das indústrias vimaranenses. O facto da Cantarinha ter tido destaque já nessa altura significa que era uma peça muito importante e valorizada pela sociedade. Atualmente é um produto certificado, o que lhe dá mais visibilidade. Cada cantarinha é única, como é feita a mão, é impossível haver duas peças iguais. É aí que reside o encanto do artesanato. 

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