Quando pensamos nas coleções das bibliotecas escolares, pensamos, antes de mais, e bem, nos livros. Na diversidade de títulos, autores, géneros, vozes e temas que queremos colocar ao alcance das crianças. Naturalmente, tudo isso tem de ser assegurado. Mas será que estamos a dar a devida atenção a outros recursos que também podem enriquecer as suas experiências de aprendizagem e de participação?
Os jogos são um desses recursos.
Num momento em que a Rede de Bibliotecas Escolares está a alargar a sua presença nas escolas do 1.º ciclo e nos jardins de infância, através da criação de novas bibliotecas e Pontos biblioteca, esta questão ganha particular relevância. A abertura de novos espaços constitui uma oportunidade para pensar não apenas nos livros que queremos disponibilizar, mas também na diversidade de outros recursos que podem integrar as suas coleções.
Um jogo de memória, de associação, de estratégia ou de construção pode colocar as crianças perante desafios muito diferentes. Observar, comparar, antecipar, experimentar, tomar decisões, encontrar soluções e reformular estratégias são algumas das ações que fazem parte da experiência de jogar.
Mas há outras aprendizagens igualmente importantes. Quando jogam em conjunto, as crianças comunicam, escutam, negoceiam, respeitam regras, esperam pela sua vez, cooperam e aprendem a lidar com resultados nem sempre favoráveis.
A investigação tem vindo a reconhecer o contributo do jogo para o desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças. Um estudo experimental publicado em 2024 na revista Learning and Instruction, envolvendo 522 alunos do ensino primário, identificou benefícios de uma intervenção com jogos de tabuleiro em diversas competências cognitivas e académicas.
Importa, contudo, não reduzir o valor dos jogos às aprendizagens que conseguimos identificar ou avaliar. Jogar é também experimentar o prazer da descoberta, enfrentar desafios, conviver e divertir-se. E estas são razões suficientemente importantes para lhes reservar um lugar na biblioteca.
As orientações internacionais para as bibliotecas reconhecem há muito a importância de disponibilizar recursos em diferentes formatos. As IFLA Guidelines for Library Services to Children aged 0–18 incluem expressamente jogos, puzzles, brinquedos e materiais sensoriais entre os recursos que podem integrar as coleções destinadas às crianças.
Também a American Library Association defende a presença dos jogos nas bibliotecas, valorizando as suas dimensões educativa, cultural, recreativa e social.
Uma coleção de jogos não deve resultar apenas de ofertas ocasionais ou de aquisições destinadas a atividades específicas. Merece ser pensada, construída e renovada de acordo com critérios de qualidade, diversidade, adequação às crianças, acessibilidade e possibilidades de utilização.
Jogos de tabuleiro, de cartas, de memória, de associação, de lógica, de estratégia e de cooperação podem coexistir com livros de diferentes géneros e formatos, proporcionando oportunidades variadas de descoberta e participação.
Não se trata de transformar a biblioteca numa sala de jogos, nem de substituir os livros por outros materiais. Trata-se de reconhecer que uma biblioteca rica em oportunidades de aprendizagem é também uma biblioteca que oferece diferentes formas de explorar, criar, pensar e interagir.
Integrar jogos na coleção significa também pensar na forma como são disponibilizados e utilizados.
Alguns podem ser utilizados livremente pelas crianças; outros podem dar origem a momentos de jogo partilhado, a desafios entre pequenos grupos ou a atividades articuladas com os educadores e professores.
Podem ainda estabelecer-se relações entre livros e jogos, explorando temas, personagens, narrativas ou problemas comuns. Um livro pode despertar a vontade de jogar; um jogo pode suscitar perguntas e curiosidades que conduzem à procura de livros.
E, tal como acontece com a leitura, a experiência não precisa de terminar à porta da biblioteca.
O empréstimo domiciliário de jogos, quando existam condições para o organizar, pode proporcionar novas oportunidades de convivência familiar. Levar um jogo para casa é também levar um convite à conversa, à partilha e à descoberta em conjunto.
Esta possibilidade ganha especial importância quando pensamos nas desigualdades de acesso a recursos educativos e culturais. Nem todas as crianças dispõem, em casa, de uma variedade de jogos de qualidade. A biblioteca pode contribuir para que esse acesso seja mais equitativo.
A criação e o enriquecimento das bibliotecas escolares convidam-nos a olhar com renovada atenção para as suas coleções.
Que jogos estão disponíveis nas nossas bibliotecas? Que experiências proporcionam? São suficientemente diversificados? Estão acessíveis às crianças? Fazem parte dos recursos que podem escolher e utilizar regularmente?
Estas perguntas podem ajudar-nos a reconhecer possibilidades ainda pouco exploradas. Os jogos podem fazer parte da oferta regular da biblioteca, ser escolhidos, recomendados, partilhados e requisitados, pois proporcionam também oportunidades de aprender, de conviver e de descobrir.
Um espaço de reflexão, (in)formação e partilha sobre bibliotecas escolares, leitura e literacias.
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