Há datas que nos convidam a celebrar o que construímos. Outras desafiam-nos a pensar no que ainda falta fazer. O Dia da Biblioteca Escolar, que em Portugal se assinala a 26 de outubro, é uma oportunidade para ambas as coisas.
Em 2026, esta celebração assume um significado especial: a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) completa 30 anos de existência, num momento em que volta a dar passos importantes no alargamento do acesso das crianças portuguesas aos livros, à leitura e às oportunidades de aprendizagem.
Celebramos, por isso, as bibliotecas, os leitores e todos aqueles que, diariamente, fazem destes espaços lugares vivos de leitura, descoberta, aprendizagem e encontro. Mas celebramos, sobretudo, uma convicção que tem orientado o trabalho da Rede ao longo de três décadas: uma escola com uma biblioteca ativa é uma escola com mais oportunidades para todos.
Em 1996, o despacho conjunto dos Ministérios da Educação e da Cultura que esteve na origem do Programa Rede de Bibliotecas Escolares começava com uma preocupação que, apesar do enorme caminho entretanto percorrido, mantém uma surpreendente atualidade:
A preocupação pela falta de hábitos e práticas de leitura da população portuguesa conduziu à criação, por despacho conjunto dos Ministros da Educação e da Cultura, em 29-12-95, de um grupo de trabalho com o fim de analisar e propor medidas tendentes a incentivar a utilização do livro nas metodologias de ensino e na organização do tempo escolar e o desenvolvimento de bibliotecas nas escolas, como forma de incrementar a leitura pública.
Analisado o relatório elaborado pelo grupo de trabalho e tendo em consideração as propostas apresentadas, o Governo decidiu dar início, já no ano lectivo de 1996-1997, ao lançamento faseado de um programa de instalação da rede de bibliotecas escolares. (Despacho Conjunto n.º 184/ME/MC/96)
Trinta anos depois, o caminho percorrido é enorme.
Portugal construiu uma Rede Bibliotecas Escolares, transformou espaços, qualificou recursos, consolidou a figura do professor bibliotecário e afirmou a biblioteca como um recurso fundamental para a aprendizagem, a leitura e o desenvolvimento das literacias.
As bibliotecas passaram a fazer parte da vida quotidiana de milhares de alunos, professores e famílias. Desenvolveram serviços, alargaram coleções, estabeleceram parcerias e integraram progressivamente novas áreas de intervenção, acompanhando as mudanças na educação e na sociedade.
No entanto, a preocupação que motivou a criação da Rede mantém toda a atualidade.
Continuamos a precisar de formar leitores, de reforçar os hábitos de leitura, de melhorar as competências de compreensão e de garantir que o acesso aos livros e à informação não depende das circunstâncias sociais, económicas ou geográficas de cada criança.
Os desafios de hoje não são exatamente os de 1996. À leitura em suporte impresso juntaram-se novos formatos, linguagens e ambientes digitais. A abundância de informação e a emergência da inteligência artificial vieram acrescentar novas exigências à formação dos leitores e dos cidadãos.
Mas a missão essencial permanece: criar condições para que todos possam ler mais, ler melhor, aprender e participar plenamente na sociedade.
Os resultados mais recentes dos estudos internacionais recordam-nos que não podemos dar por adquiridas as competências de leitura. O PISA 2025 voltou a evidenciar dificuldades entre os alunos portugueses, com um novo recuo no desempenho em leitura relativamente a 2022, acompanhando uma tendência de declínio observada em muitos países da OCDE. Estes resultados reforçam a necessidade de uma intervenção consistente e continuada, desde os primeiros anos, que promova o desenvolvimento da competência leitora e a construção de hábitos de leitura.
Efetivamente, aprender a ler é uma conquista decisiva, mas não chega. É necessário continuar a ler, ler cada vez melhor, compreender textos progressivamente mais exigentes, desenvolver vocabulário, interpretar, estabelecer relações, questionar e construir conhecimento.
E é igualmente necessário descobrir que ler pode ser uma escolha, uma fonte de prazer, uma forma de conhecer o mundo e de nos conhecermos melhor.
As bibliotecas escolares têm um papel fundamental neste processo.
Proporcionam o contacto regular com livros diversificados, permitem que cada criança encontre leituras adequadas aos seus interesses e necessidades e criam oportunidades para ler autonomamente, ouvir ler, conversar sobre livros e partilhar descobertas.
Apoiam os docentes, articulam-se com o currículo e contribuem para que a leitura não fique confinada a uma disciplina, a um projeto ou a um momento ocasional.
Ajudam também a construir um ambiente leitor em toda a escola, no qual os livros estão presentes, a leitura é valorizada e os adultos assumem um papel ativo enquanto leitores e mediadores.
E permitem prolongar essa experiência para além dos muros da escola, através do empréstimo domiciliário, da leitura partilhada em família e da aproximação entre diferentes gerações de leitores.
Porque não basta ensinar a ler. É preciso criar condições para que todas as crianças queiram continuar a ler.
Vivemos num tempo marcado pela abundância de informação, pela aceleração tecnológica e pela presença crescente da inteligência artificial nas nossas vidas.
Nunca foi tão fácil aceder a conteúdos. Mas aceder não significa necessariamente compreender. Encontrar uma resposta não é o mesmo que saber avaliá-la. E dispor de ferramentas tecnológicas cada vez mais sofisticadas torna cada vez mais relevante a capacidade de pensar, questionar, interpretar e decidir.
Neste contexto, as bibliotecas escolares são particularmente importantes.
São espaços onde os alunos podem aprender a distinguir informação de opinião, avaliar a credibilidade das fontes, reconhecer diferentes perspetivas e utilizar os media e as tecnologias de forma crítica, responsável e criativa.
São também lugares de encontro com a literatura, com a ciência, com a arte e com ideias que desafiam aquilo que julgamos saber.
Lugares onde se aprende a escutar, a argumentar, a respeitar a diferença e a construir pensamento próprio.
Num tempo em que muitas respostas parecem estar à distância de um clique, precisamos de espaços que continuem a valorizar as perguntas, a curiosidade, a reflexão, bem como a criatividade e a imaginação.
A biblioteca escolar é um desses espaços.
Em 2026, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação lançou uma medida extraordinária de expansão da Rede no 1.º ciclo do ensino básico, dando resposta a uma necessidade que subsistia em numerosas escolas portuguesas.
Esta iniciativa traduz uma renovada vontade política de prosseguir o compromisso assumido em 1996, procurando superar desigualdades de acesso que, apesar dos progressos alcançados ao longo de três décadas, ainda persistem. Ao promover o alargamento da Rede, reafirma-se o princípio de que todas as crianças, independentemente da escola que frequentam, devem ter acesso aos livros, à leitura e a um serviço de biblioteca escolar de qualidade.
Por detrás desta medida estão escolas onde, até agora, muitos alunos não dispunham de uma biblioteca próxima, com uma coleção diversificada e adequada às suas idades e interesses. Estão comunidades educativas que passam a dispor de melhores condições para integrar a leitura nas práticas quotidianas. Estão cerca de mais 56 650 crianças para quem a presença regular dos livros vai representar uma diferença importante no seu percurso escolar.
A expansão da Rede de Bibliotecas Escolares constitui um motivo de satisfação e de esperança. Mas o verdadeiro alcance deste investimento será medido pela forma como as novas bibliotecas passam a fazer parte da vida das escolas e das crianças.
Uma biblioteca não se constrói apenas com estantes, mobiliário e livros. Precisa de profissionais que assegurem o seu funcionamento, de coleções atualizadas, de serviços acessíveis, de articulação com os docentes e de uma presença efetiva nas práticas educativas.
Precisa, acima de tudo, de ser utilizada.
O crescimento da Rede traz, por isso, uma responsabilidade acrescida: garantir que cada nova biblioteca se afirma como um recurso educativo essencial, integrado no trabalho do agrupamento e disponível para todos os alunos.
Isso implica assegurar um serviço de biblioteca que chegue regularmente a todas as escolas, incluindo as de menor dimensão, e que proporcione experiências de leitura e aprendizagem continuadas.
Uma biblioteca que abre as portas, mas que não tem uma presença regular na vida escolar, dificilmente concretizará todo o seu potencial. Uma biblioteca que faz parte do quotidiano das crianças, que aproxima os livros dos leitores, que apoia as aprendizagens e que envolve os professores e as famílias pode transformar a experiência escolar.
O desafio não é apenas ter mais bibliotecas. É fazer com que cada vez mais crianças tenham verdadeiramente uma biblioteca.
Neste Dia da Biblioteca Escolar, celebramos as bibliotecas que já fazem parte da vida de várias gerações de alunos e aquelas que estão agora a nascer, levando os livros e a leitura a escolas onde a sua presença era ainda insuficiente.
Celebramos as comunidades educativas que reconhecem a leitura como uma prioridade e fazem da biblioteca um espaço partilhado, integrado nas práticas pedagógicas e aberto à participação de todos.
Celebramos três décadas de trabalho, de investimento, de persistência e de cooperação, que fizeram da Rede de Bibliotecas Escolares uma realidade incontornável do sistema educativo português.
Mas celebrar o que foi construído é também reconhecer aquilo que ainda precisa de ser feito. O desafio dos próximos anos será continuar a alargar o acesso às bibliotecas, assegurar a qualidade e a regularidade dos seus serviços, fortalecer a sua integração nas práticas educativas e aprofundar o seu contributo para a leitura, as aprendizagens e o desenvolvimento das literacias.
Trinta anos depois, a missão que esteve na origem da Rede de Bibliotecas Escolares mantém toda a sua atualidade.
E o compromisso renova-se: continuar a trabalhar para que todas as crianças e jovens possam encontrar na biblioteca escolar um lugar para ler, aprender, descobrir e crescer. Porque cada nova biblioteca é uma oportunidade.
Mais bibliotecas. Mais leitores. Mais oportunidades para todos.