Nas últimas décadas diversos estudos têm evidenciado que há uma tendência de redução do reportório e das capacidades do cérebro humano.
Um destes estudos é o do gestor e administrador de empresas Christophe Clavé, publicado pela primeira vez em 2019, que demonstra que o QI médio e as funções cognitivas estão a diminuir nos países mais desenvolvidos, na sociedade e dentro da mesma família, nomeadamente na Europa Ocidental.
Esta tendência decorre de:
Diz ele:
“O desaparecimento gradual dos tempos verbais (subjuntivo, pretérito perfeito simples, pretérito imperfeito, futuro composto, particípio passado, etc.) leva a um modo de pensar orientado para o presente, limitado ao momento, incapaz de projetar-se no futuro. O uso generalizado da forma informal ‘tu’, o desaparecimento das maiúsculas e da pontuação são golpes fatais para a sutileza da expressão. Eliminar a palavra ‘mademoiselle’ não é apenas renunciar à estética de uma palavra, mas também promover a ideia de que não há nada entre uma menina e uma mulher” [1].
Esta situação é acompanhada da diminuição do pensamento crítico, complexo e profundo e da diminuição da inovação científica e da economia global, razão pela qual o estudo foi apresentado no World Economic Fórum 2019, em Davos.
Na educação, estudos e avaliações internacionais têm registado uma tendência de declínio do desempenho na aprendizagem dos alunos. O PISA 2022, da OCDE, revelou uma queda, sem precedentes, no desempenho médio dos países da OCDE: entre 2018 e 2022, a leitura caiu 10 pontos e a matemática quase 15 pontos. E a OCDE salienta que, no caso da leitura, a tendência descendente não começou com a pandemia, é prolongada, vem a deteriorar-se há cerca de uma década.
Apesar da relação entre estes fenómenos ser complexa e não permitir estabelecer uma causalidade simples, o declínio no desempenho em leitura ocorre num contexto que tem suscitado preocupações quanto ao desenvolvimento do vocabulário e à redução da exposição dos jovens a textos linguisticamente ricos.
Segundo O Império da IA (2026) de Karen Hao, a extinção de idiomas e culturas é um dos principais vetores que possibilita o “projeto de centralização imperial” da OpenAI [2].
Afirma a jornalista e investigadora:
“Os grandes modelos de linguagem aceleram o desaparecimento das línguas. (…) são poucas as línguas existentes no mundo com um número de falantes e uma presença online com dimensão suficiente para suprir as necessidades desses modelos em termos de quantidade de dados. Segundo a UNESCO, quase metade das mais de sete mil línguas atualmente ainda existentes está em risco de extinção; cerca de um terço tem alguma presença online; menos de 2% são suportadas pelo Google Translate; e de acordo com os testes da própria OpenAI, apenas quinze – ou seja 0,2% - são suportadas pelo GPT-4 com um grau de precisão superior a 80%. Quanto mais estes modelos se vão transformando em infraestrutura digital, mais limitado vai ficando o acesso à internet por parte das diferentes comunidades linguísticas” [2].
E a eficácia e perversão deste sistema é que são os próprios utilizadores/consumidores afetados por esta extinção do seu património que, voluntariamente, se oferecem para o reforçar e perpetuar, pois “conferem prioridade à aprendizagem e utilização de línguas dominantes como o inglês” [2].
“De acordo com o Catálogo de idiomas em perigo do ELP [Endangered Languages Project], a perda de idiomas está a ocorrer atualmente mais rapidamente do que em qualquer outro momento da história da humanidade” [3].
Segundo a UNESCO, apesar de 40% da população mundial não ter acesso à educação numa língua que fale ou compreenda, a aprendizagem na língua materna, sobretudo no início da escolaridade, é muito importante. As línguas são o principal meio de transmissão de conhecimentos e de preservação cultural e permitem criar ambientes de aprendizagem inclusivos e equitativos [4].
A biblioteca escolar assume-se como uma comunidade intercultural, plurilingue e representativa de todos. A palavra – a partir do seu exercício, a leitura e a escrita - é o seu elemento humanizador fundamental. O recente artigo do blogue RBE, Interculturalidade e Humanismo - O outro sou eu, apresenta uma diversidade de atividades das bibliotecas escolares no terreno que valorizam e dignificam a comunidade como um todo, conferindo especial atenção às línguas, tradições e culturas dos grupos marginalizados.
Nota
Este é o quarto de uma série de 5 artigos escritos no âmbito da participação da Rede de Bibliotecas Escolares no painel "Diversidade na Escola: que desafios e oportunidades?" do Seminário "(Re)Pensar a Escola: uma arte, um desafio, uma oportunidade" do Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Cerveira, de 9 setembro de 2026.
Referências