No passado dia 8 de setembro, Dia Internacional da Literacia, o Auditório Municipal António Chainho, em Santiago do Cacém, acolheu o I Seminário sobre Mediação de Leitura, reunindo mais de uma centena de participantes da comunidade educativa numa jornada de reflexão, formação e partilha em torno de uma questão essencial: como formar leitores e como qualificar os adultos que os acompanham nesse percurso?
Promovido pelo Município de Santiago do Cacém, no âmbito do Programa Municipal de Promoção do Sucesso Escolar “A Escola (e)Leva-te!”, o seminário constituiu também um momento de balanço e de divulgação do Plano Estratégico de Capacitação de Mediadores de Leitura, dinamizado pela mediadora Paula Cusati em articulação com os agrupamentos de escolas do concelho.
A escolha da data conferiu ao encontro uma pertinência particular. No mesmo dia em que se assinalava o Dia Internacional da Literacia, eram conhecidos os resultados do PISA, recolocando no centro da discussão as competências leitoras dos jovens e os desafios que se colocam à escola e à sociedade na formação de leitores. Uma coincidência que reforçou a necessidade de olhar para as experiências, as práticas e as condições que proporcionamos às crianças e aos jovens para que possam desenvolver uma relação consistente, competente e significativa com a leitura.
A manhã foi dedicada à reflexão sobre a literacia, a educação literária e a mediação de leitura.
Na sessão de abertura, na qual estiveram presentes as coordenadoras da Rede de Bibliotecas Escolares e do Plano Nacional de Leitura para além do presidente da Câmara Municipal de Santiago do Cacém e de duas das diretoras de agrupamento do concelho, foi dado destaque à necessidade premente de abordar a promoção da leitura de forma articulada entre todos os atores envolvidos, evidenciando a composição da mesa esse imperativo coletivo.
A coordenadora da Rede de Bibliotecas Escolares destacou a importância de garantir a todas as crianças o acesso aos livros e oportunidades regulares de leitura, com tempo, liberdade de escolha e acompanhamento. Sublinhou o investimento no alargamento da Rede ao 1.º ciclo e a necessidade de valorizar as bibliotecas existentes, integrando-as numa ação de promoção da leitura assumida por todo o agrupamento, que articule leitura livre, empréstimo domiciliário e partilha de livros e experiências. Destacou ainda o trabalho da Rede Concelhia e o programa municipal «A Escola (e)Leva-te!», reforçando a importância da cooperação entre escolas, bibliotecas e autarquia e da crescente proximidade entre a RBE e o Plano Nacional de Leitura no âmbito do EduQA.
A Coordenadora do Plano Nacional de Leitura sublinhou que a mediação da leitura é uma responsabilidade partilhada, tornando-se cada vez mais premente a capacitação de docentes, profissionais de bibliotecas e famílias para se assumirem como mediadores de leitura. Valorizou ainda os Planos Locais de leitura, bem como este projeto de mediação desenvolvido em Santiago do Cacém.
O Presidente da Câmara Municipal de Santiago do Cacém salientou a importância do trabalho em rede, que se constrói na articulação entre instituições, mas também na abertura a outros parceiros, saberes e contributos que possam acrescentar valor ao trabalho desenvolvido. Sublinhou ainda o papel fundamental da leitura num contexto marcado pela exposição a um volume crescente de informação, destacando a necessidade premente de desenvolver a capacidade de ler, compreender e analisar criticamente os textos e, consequentemente, de fortalecer as competências de literacia da informação e dos media.
A Diretora do Agrupamento de Escolas de Cercal do Alentejo enalteceu o trabalho desenvolvido no âmbito do Plano Estratégico de Capacitação de Mediadores de Leitura, salientando o envolvimento de todas as entidades, bem como a oportunidade dada aos Agrupamentos para apresentarem as suas experiências e os resultados da implementação do Plano, dando visibilidade à diversidade de contextos que compõem esta rede.
Paula Cusati apresentou o balanço do primeiro ano do Plano Estratégico de Capacitação de Mediadores de Leitura, dando conta de um trabalho continuado que incluiu 68 sessões de mediação de leitura, momentos de formação, a criação de um grupo de estudo e iniciativas dirigidas às famílias. O reforço dos acervos das escolas, através da aquisição de literatura de qualidade, constituiu igualmente uma das dimensões do trabalho desenvolvido.
Entre os princípios orientadores do Plano destaca-se a valorização da leitura em profundidade, que exige tempo, conhecimento e intencionalidade por parte de quem a medeia. Neste contexto, Paula Cusati recuperou uma ideia de Pedro Cerrillo — «Um leitor não nasce, faz-se; mas o não leitor também.» —, sublinhando a responsabilidade dos adultos nas experiências leitoras proporcionadas às crianças e aos jovens e, consequentemente, a importância da capacitação dos profissionais de educação enquanto mediadores de leitura.
Seguiu-se a conferência de Sara Reis da Silva, do Instituto de Educação da Universidade do Minho, intitulada Deixar falar os textos? O lugar da educação literária na formação e nas práticas de educadores e professores do 1.º CEB.
A intervenção centrou-se no lugar da literatura na escola e na importância de proporcionar às crianças uma verdadeira experiência estética e literária, evitando reduzir o texto a um instrumento ao serviço de objetivos exclusivamente utilitários ou avaliativos. O contacto com a literatura deve permitir aos leitores encontrar-se com os textos, escutá-los, interrogá-los e construir uma relação pessoal com a leitura.
A tarde deu voz às escolas e às práticas desenvolvidas nos agrupamentos de escolas do concelho de Santiago do Cacém.
Carmen Pereira, do Agrupamento de Escolas de Santiago do Cacém, apresentou Da pergunta à descoberta: aprender com curiosidade, mostrando como as interrogações espontâneas das crianças podem constituir o ponto de partida para projetos de investigação apoiados no livro e na leitura.
Marisa Reis, do Agrupamento de Escolas de Cercal do Alentejo, apresentou Criar leitores no 1.º CEB, centrando a reflexão no valor das práticas regulares de leitura por prazer.
Do Agrupamento de Escolas de Santo André chegaram duas perspetivas complementares: Cira Cardoso, com Um grupo de docentes que lê e estuda, evidenciando a importância do estudo e da reflexão colaborativa entre profissionais, e Luísa de Macedo, com Bons livros: perceções e inquietações de uma professora, dedicada à exigência e à responsabilidade inerentes à seleção de literatura infanto-juvenil de qualidade.
Por sua vez, Antónia Lança, professora bibliotecária do Agrupamento de Escolas Professor Arménio Lança, apresentou Biblioteca Escolar: plantar… colher leituras, sublinhando o papel da biblioteca escolar enquanto espaço de acolhimento, inclusão, acesso aos livros e ligação às famílias e à comunidade.
A diversidade das experiências partilhadas mostrou que não existe uma única forma de cultivar leitores. Existem contextos diferentes, comunidades diferentes, crianças e jovens diferentes. Mas há um elemento comum: a necessidade de uma ação intencional, continuada e partilhada.
Foi precisamente esta dimensão de trabalho em rede que esteve presente no encerramento do seminário.
A presença, ao longo do dia, de representantes do Município, das direções dos agrupamentos, das bibliotecas escolares e municipais, de professores, educadores, famílias e das Coordenadoras da Rede de Bibliotecas Escolares e do Plano Nacional de Leitura traduziu uma ideia fundamental: a formação de leitores é uma responsabilidade partilhada.
O I Seminário sobre Mediação de Leitura de Santiago do Cacém deu visibilidade a esta dimensão de trabalho em rede, reunindo diferentes profissionais em torno da reflexão sobre as práticas de promoção da leitura, da partilha de experiências e do reforço da capacitação dos mediadores.
Mais do que dar a conhecer o trabalho que está a ser desenvolvido no concelho, o encontro terminou com o horizonte já apontado para uma II edição em 2027, deixando um desafio que ultrapassa a sua própria realização: continuar a investir nos mediadores para melhor acompanhar os leitores.
Porque formar leitores é um trabalho de continuidade.
E, em rede, podemos chegar mais longe.
