O que acontece quando a leitura sai das estantes e se cruza com a terra, as plantas, os cavalos, as histórias e os saberes de uma comunidade? Na Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Alter do Chão (EPDRAC), a resposta começou a construir-se no ano letivo de 2024-2025, através do projeto “Biblioteca com Rédeas e Raízes”.
Integrada no Plano de Melhoria da Biblioteca Escolar e desenvolvida em articulação com o referencial Aprender com a Biblioteca Escolar, a iniciativa parte da identidade agrícola e equestre da EPDRAC para promover a leitura, a pesquisa, a comunicação e a produção de conhecimento. A biblioteca aproxima-se, assim, das áreas de formação da escola, dos interesses dos alunos e do património material e imaterial do território em que está inserida.
Sob a coordenação da professora bibliotecária Sandra Ferreira e da equipa da Biblioteca Escolar, o projeto procura desenvolver diferentes literacias - leitora, digital, científica, ambiental e mediática -, colocando os alunos perante situações concretas de aprendizagem. Ler, neste contexto, não significa apenas contactar com textos literários ou informativos: significa também observar, investigar, interpretar o meio, recolher testemunhos, confrontar fontes e comunicar aquilo que se aprendeu.
Esta articulação entre leitura, conhecimento e experiência concretiza-se num conjunto diversificado de ações, concebidas para fazer da biblioteca um espaço de encontro entre disciplinas, práticas profissionais e saberes da comunidade.
O Clube de Leitura “Raízes e Rédeas” propõe leituras relacionadas com o mundo rural, a agricultura, a natureza e a tradição equestre. A escolha destes temas permite aproximar os livros do contexto dos alunos e criar oportunidades para conversar sobre a relação entre as pessoas, os animais, a paisagem e as transformações do território. A leitura torna-se, deste modo, um ponto de partida para compreender melhor a realidade próxima e estabelecer ligações com outros tempos, lugares e experiências.
No “Herbário Vivo & Biblioteca Verde”, a horta da escola transforma-se num laboratório de aprendizagem. Os alunos observam e identificam plantas, pesquisam as suas características e organizam a informação recolhida em fichas digitais, às quais é possível aceder através de códigos QR. O espaço exterior e os recursos digitais complementam-se: aquilo que se encontra no terreno pode ser explorado, documentado e partilhado com recurso à leitura, à pesquisa e à tecnologia.
A vertente multimédia está presente na Oficina “Histórias do Campo”, na qual os alunos produzem podcasts e pequenos documentários sobre o quotidiano agrícola e equestre. A preparação destes conteúdos implica formular perguntas, selecionar informação, elaborar guiões, realizar entrevistas e tomar decisões sobre a forma de contar cada história. Para além das competências técnicas, desenvolvem-se, assim, capacidades de escuta, escrita, comunicação e edição, essenciais para uma participação informada no atual ecossistema mediático.
Ao recolher memórias, experiências e testemunhos, os alunos assumem também um papel ativo na preservação e divulgação de conhecimentos que fazem parte da identidade local. As vozes da comunidade entram na escola e tornam-se matéria de aprendizagem, ao mesmo tempo que os trabalhos produzidos pelos alunos ajudam a tornar esse património mais conhecido e acessível.
A Biblioteca Itinerante Rural, equipada com livros, procura levar a leitura para além do espaço físico da biblioteca e aproximá-la dos lugares onde decorrem outras atividades escolares. Esta circulação permite criar novas ocasiões de contacto com os livros e reforça a ideia de que a leitura pode acompanhar os alunos nos diferentes espaços, tempos e contextos da sua formação.
O projeto inclui ainda sessões abertas à comunidade, com palestras, exposições e encontros dinamizados em colaboração com parceiros locais. Estes momentos alargam o trabalho desenvolvido na escola, promovem a partilha de conhecimentos e reforçam a ligação entre a biblioteca escolar, as famílias, as instituições e o território.
Mais do que reunir um conjunto de atividades, “Biblioteca com Rédeas e Raízes” apresenta uma visão integrada da ação da biblioteca escolar. Os livros convivem com as plantas, a tecnologia dá visibilidade à memória local e os alunos deixam de ser apenas destinatários das propostas para se tornarem investigadores, autores e produtores de conteúdos.
É desta forma que a biblioteca ganha raízes na comunidade sem deixar de abrir caminhos: valoriza o que é próximo, ajuda a compreendê-lo criticamente e transforma-o em matéria de leitura, criação e aprendizagem.
Conhecer o projeto “Biblioteca com Rédeas e Raízes”