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“Ficou mesmo bonito… parece que cada lenço faz parte de um coração maior”

“Jornalistas em Rede” é um concurso promovido pelo PÚBLICO na Escola e a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) e destinado aos alunos do 3.º ciclo do ensino básico. Em cada ano letivo, atribui dois prémios: à melhor entrevista e à melhor reportagem. Os trabalhos a concurso foram apreciados por um júri do qual fizeram parte: Bárbara Simões, jornalista e coordenadora do PÚBLICO na Escola; Carla Fernandes e Dália Santos, elementos da equipa RBE; e Carolina Zoe Oliveira, aluna do 10.º ano na Escola Secundária de Camões, em Lisboa.

“Ficou mesmo bonito… parece que cada lenço faz parte de um coração maior”

Uma tradição antiga pode ser recontada. Foi o que aconteceu na nossa escola, depois da "invasão" dos Lenços dos Namorados.

Reportagem de Carolina Rebelo, Elsa Moreau e Maria Fariñas, alunas do 8º ano Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Cerveira

Durante várias semanas, a nossa escola, em Vila Nova de Cerveira, começou a transformar-se. Nas salas de aula apareceram panos brancos, linhas coloridas e muitas perguntas. No início parecia apenas mais um trabalho escolar, mas rapidamente percebemos que estávamos a entrar numa história muito mais antiga do que nós: a dos Lenços dos Namorados, uma tradição minhota que passou de geração em geração.

Começámos por conhecer esta tradição, bordada por jovens mulheres para expressar sentimentos. Alguns tinham frases simples, outros desenhos de flores, corações ou pássaros.

Foi então que descobrimos algo que nos surpreendeu: muitos destes lenços tinham erros ortográficos. Pensávamos que era distração, mas numa aula de Português percebemos que não era bem assim.

Foi nessa aula que aconteceu um dos momentos mais marcantes do projeto. Enquanto falávamos sobre erros, um colega nosso, Tomás Rio, que tem dislexia, disse com naturalidade: “Então eu escrevo normalmente.”

Rimo-nos todos, mas aquele momento fez-nos pensar. De repente, percebemos que os erros dos lenços não eram falhas - faziam parte da história das pessoas que os tinham bordado. Muitas das jovens que bordavam estes lenços tinham pouco acesso à escola. Os erros não eram descuidos, eram reflexo da sua realidade. 

Pouco depois fizemos outra descoberta que nos surpreendeu. Sempre tínhamos pensado que as cores dos lenços eram escolhidas apenas por serem bonitas, mas aprendemos que muitas bordadeiras usavam restos de fio que sobravam do trabalho doméstico feito para as suas patroas. As cores não eram planeadas: eram as que existiam.

Cada linha escondia histórias de trabalho, de falta de materiais e de criatividade.

Foi nessa altura que um dos nossos colegas decidiu falar com a sua avó, que sabia bordar e tinha feito Lenços dos Namorados quando era mais nova.

Preparámos algumas perguntas e ele levou-as para casa. Quisemos saber como aprendiam a bordar e o que significavam os desenhos.

A avó, Maria José Rebelo, contou que muitas raparigas aprendiam os pontos em casa, observando as mães ou as vizinhas. Disse também que bordar um lenço levava tempo e paciência, porque cada ponto era feito com cuidado.

“Naquele tempo, bordávamos com o que tínhamos, mas cada lenço levava muito sentimento”, explicou a avó. Mais do que um objeto bonito, o lenço era uma forma de mostrar sentimentos. Ao ouvirmos estas histórias, percebemos que aqueles pequenos panos guardavam muito mais do que desenhos: guardavam vidas.

Em Cidadania e Desenvolvimento, começámos então a pensar no significado desta tradição. Perguntámo-nos se hoje os lenços poderiam ter outro sentido. Foi assim que surgiu a ideia de os transformar em Lenços da Amizade. Em vez de mensagens associadas ao amor romântico, decidimos escrever palavras sobre amizade, empatia e respeito pelo outro.

“Quis falar da amizade, porque é algo que também é muito importante para nós”, explicou uma das alunas, Elsa Moreau. Para nós, estes lenços passaram também a ser uma forma de dar mais valor às tradições das nossas avós, aos saberes antigos e às histórias que chegaram até nós através delas. Trabalhámos em grupo, discutimos ideias e escolhemos frases e símbolos - nem sempre foi fácil, mas aprendemos a ouvir os outros e a trabalhar em conjunto.

“Cada lenço é diferente, porque cada um pensou numa mensagem especial”, partilhou uma das alunas, Vitória Guerreiro. O projeto foi crescendo e começou a envolver várias disciplinas. Em diferentes momentos, apresentámos os nossos lenços, explicando os símbolos, as cores e as mensagens. 
“No início foi difícil falar, mas depois começámos a perceber melhor o que queríamos transmitir”, disse outra aluna, Cecília Fariña.

Também pesquisámos a origem desta tradição, ligada ao Minho e às zonas rurais do norte de Portugal, e organizámos a informação em formato digital. Assim percebemos que uma tradição antiga também pode ser contada de formas novas.

Nem tudo aconteceu dentro da sala de aula. Na Biblioteca Escolar, alguns de nós aprenderam a bordar; outros pediram ajuda em casa. 
Houve avós que ensinaram pontos, contaram histórias e ajudaram a escolher cores. Aos poucos, a escola entrou nas nossas casas e as nossas famílias passaram também a fazer parte do projeto.

“Gostei muito de aprender a bordar com a minha avó”, contou uma das alunas, Carolina Rebelo.

Quando terminámos os nossos lenços, percebemos que tínhamos aprendido muito mais do que imaginávamos. Aprendemos que as tradições não pertencem apenas ao passado: podem ganhar novos significados quando são conhecidas, partilhadas e adaptadas aos dias de hoje.

O projeto terminou com uma exposição final na Semana da Autonomia e Flexibilidade Curricular, onde os nossos Lenços da Amizade foram apresentados à comunidade escolar. Foi um momento especial: pudemos mostrar o trabalho desenvolvido e partilhar com alunos, professores e famílias as histórias que aprendemos a contar.

“Ficou mesmo bonito… parece que cada lenço faz parte de um coração maior”, comentou uma das alunas, Leonor Costa. 
 
Ficaram lenços. Ficaram sobretudo histórias, memórias e aprendizagens que agora fazem parte de nós. Na nossa escola, os Lenços dos Namorados não ficaram guardados no passado. Voltaram a respirar - desta vez nas nossas mãos. 

[O concurso Jornalistas em Rede, iniciativa do PÚBLICO na Escola e da Rede de Bibliotecas Escolares, destina-se a estudantes do 3.º ciclo do ensino básico. Ocupa-se da reportagem e da entrevista. O júri que aprecia os trabalhos é constituído por: Bárbara Simões, jornalista e coordenadora do PÚBLICO na Escola; e Carla Fernandes e Dália Santos, professoras, em representação da RBE.]

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